sábado, 4 de julho de 2026

Piauí teve 2,4 mil mortes por ondas de calor em 20 anos e idosos são 86% das vítimas

Estudo inédito da Fiocruz aponta estado acima da média nacional; pesquisa com gestantes em Teresina reforça impacto do calor extremo

Daniel Pessoa

O Piauí registrou 2.425 mortes atribuídas às ondas de calor entre 2000 e 2019, sendo o segundo estado com maior índice na região Nordeste, atrás apenas do Maranhão. Os dados integram um levantamento inédito conduzido por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Em todo o país, no mesmo período, foram registradas mais de 120 mil mortes associadas ao calor extremo.

Pesquisa inédita da Fiocruz aponta idosos como grupo mais vulnerável e desigualdade como agravante. - (Daniel Pessoa / O Dia)  
Daniel Pessoa / O Dia
Pesquisa inédita da Fiocruz aponta idosos como grupo mais vulnerável e desigualdade como agravante.

O estudo é inédito em escala nacional e cruza dados de calor extremo com internações registradas pelo SUS ao longo de 20 anos, revelando os efeitos das altas temperaturas na saúde dos brasileiros. Os resultados confirmam previsões sobre o impacto do aumento da temperatura na população. Em 2025, a temperatura anual ficou cerca de 1,43 ºC acima da média pré-industrial (1850-1900), tornando o ano passado o terceiro mais quente da série histórica.

Apesar de ficar atrás do Maranhão em mortes naturais atribuídas ao calor, o Piauí apresenta uma fração atribuível superior à média nacional: 0,85% contra 0,6% do país. No estado, a maioria das vítimas se concentra na faixa de 65 anos ou mais, que responde por 2.081 das 2.425 mortes registradas.

Maioria das vítimas do calor no Piauí se concentra na faixa de 65 anos ou mais.  - (Assis Fernandes/O DIA) 
 Assis Fernandes/O DIA
Maioria das vítimas do calor no Piauí se concentra na faixa de 65 anos ou mais.

O Jornal O Dia conversou com a pesquisadora Beatriz Oliveira, que coordenou o levantamento pela Fiocruz. Ela explicou que, por o estado ser extremamente quente, foram avaliadas três regiões climáticas: o macro cerrado, o meio norte e o semiárido, cada uma com riscos distintos de mortalidade.

"A região dos Cerrados tem um risco de 12% de aumento de mortalidade geral durante esses eventos. Mas quando você pega o Semiárido e o Cerrado [em eventos mais intensos], esse risco já aumenta para 17%, enquanto a parte mais litoral é 13%.", declarou a pesquisadora.

Vulnerabilidade social

Em relação aos grupos mais vulneráveis, Beatriz Oliveira enfatiza que o impacto é muito mais concentrado na terceira idade no Piauí do que no restante do Brasil, o que torna o estado um caso crítico.

"As estimativas da mortalidade geral idosa [no Piauí], elas correspondem a quase 90% das estimativas que foram feitas com a população geral. Isso foi superior ao que é encontrado no país, que é de 80%. Ou seja, é um grupo extremamente prioritário nesse estado."

Pesquisadora da Fiocruz e coordenadora do estudo, Beatriz Oliveira.  - (Fiocruz / Instagram )  
Fiocruz / Instagram
Pesquisadora da Fiocruz e coordenadora do estudo, Beatriz Oliveira.

A pesquisadora explica que a letalidade do calor no Piauí e no Nordeste como um todo não pode ser separada da realidade social da região. A falta de infraestrutura socioeconômica em grande parte torna a população mais vulnerável a doenças como gastroenterites e outros problemas de saúde pública.

"Quando você olha pro Nordeste e olha pro estado, que é um estado com esse perfil de doenças negligenciadas muito voltado para a pobreza, você olha que, conforme você vai aumentando a intensidade e a duração desses eventos [de calor], a região também acaba apresentando um aumento de gastroenterites", disse.

Beatriz acrescenta que o aumento de internações por esses casos está ligado a alterações ambientais que afetam a qualidade da água e o armazenamento de alimentos. O estudo mostrou que os mais pobres são os mais afetados. Na região do semiárido, o risco de morte pode aumentar em 17% para pessoas sem escolaridade, reforçando que a desigualdade social amplifica a vulnerabilidade climática.

Gestantes e Calor Extremo em Teresina

Outro estudo publicado em 2025, fruto de um memorando de entendimento entre a Prefeitura de Teresina e o Fundo de População da ONU (UNFPA), avaliou o impacto do calor extremo em mulheres grávidas e criou uma base de dados primários sobre o tema. A pesquisa ouviu 411 mulheres em 75 Unidades Básicas de Saúde (UBS) da capital piauiense.

Liderado pela arquiteta e urbanista Elisa Carvalho, o levantamento derrubou a ideia de que o teresinense, por conviver historicamente com altas temperaturas, não sofre com o calor. Os dados mostraram que 89% das entrevistadas declararam que o clima impacta diretamente sua saúde física e 83,7% afirmaram que o calor afeta o bem-estar de forma negativa.

O estudo com gestantes mostrou que 82% sentiram piora no cansaço ou fadiga com o aumento de temperatura. - (Nathalia Amaral / O Dia) 
  Nathalia Amaral / O Dia
O estudo com gestantes mostrou que 82% sentiram piora no cansaço ou fadiga com o aumento de temperatura.

Elisa apontou que o dado mais crítico revelado foi o hiato entre o sofrimento das pacientes e a orientação clínica: 91% dessas mulheres nunca conversaram com um profissional de saúde sobre o impacto do calor na gravidez, e 84% relataram não ter acesso adequado a informações sobre como lidar com o calor durante a gestação.

"Nós partimos do pressuposto de que existia e existe em Teresina uma naturalização do calor. Nós, teresinenses, temos essa tendência... mas essa hipótese de que o calor era normalizado não se confirmou. Quando a gente perguntava se essa gestante gostaria de participar da pesquisa sobre o calor, a maioria das pessoas entrevistadas já começavam as queixas antes mesmo de começar a falar sobre o trabalho [responder o questionário]. Isso já foi pra gente um grande achado.", relatou Elisa Carvalho.

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