Estudo inédito da Fiocruz aponta estado acima da média nacional; pesquisa com gestantes em Teresina reforça impacto do calor extremo
O Piauí registrou 2.425 mortes atribuídas às ondas de calor entre 2000 e 2019, sendo o segundo estado com maior índice na região Nordeste, atrás apenas do Maranhão. Os dados integram um levantamento inédito conduzido por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Em todo o país, no mesmo período, foram registradas mais de 120 mil mortes associadas ao calor extremo.
O estudo é inédito em escala nacional e cruza dados de calor extremo com internações registradas pelo SUS ao longo de 20 anos, revelando os efeitos das altas temperaturas na saúde dos brasileiros. Os resultados confirmam previsões sobre o impacto do aumento da temperatura na população. Em 2025, a temperatura anual ficou cerca de 1,43 ºC acima da média pré-industrial (1850-1900), tornando o ano passado o terceiro mais quente da série histórica.
Apesar de ficar atrás do Maranhão em mortes naturais atribuídas ao calor, o Piauí apresenta uma fração atribuível superior à média nacional: 0,85% contra 0,6% do país. No estado, a maioria das vítimas se concentra na faixa de 65 anos ou mais, que responde por 2.081 das 2.425 mortes registradas.
O Jornal O Dia conversou com a pesquisadora Beatriz Oliveira, que coordenou o levantamento pela Fiocruz. Ela explicou que, por o estado ser extremamente quente, foram avaliadas três regiões climáticas: o macro cerrado, o meio norte e o semiárido, cada uma com riscos distintos de mortalidade.
"A região dos Cerrados tem um risco de 12% de aumento de mortalidade geral durante esses eventos. Mas quando você pega o Semiárido e o Cerrado [em eventos mais intensos], esse risco já aumenta para 17%, enquanto a parte mais litoral é 13%.", declarou a pesquisadora.
Vulnerabilidade social
Em relação aos grupos mais vulneráveis, Beatriz Oliveira enfatiza que o impacto é muito mais concentrado na terceira idade no Piauí do que no restante do Brasil, o que torna o estado um caso crítico.
"As estimativas da mortalidade geral idosa [no Piauí], elas correspondem a quase 90% das estimativas que foram feitas com a população geral. Isso foi superior ao que é encontrado no país, que é de 80%. Ou seja, é um grupo extremamente prioritário nesse estado."
A pesquisadora explica que a letalidade do calor no Piauí e no Nordeste como um todo não pode ser separada da realidade social da região. A falta de infraestrutura socioeconômica em grande parte torna a população mais vulnerável a doenças como gastroenterites e outros problemas de saúde pública.
"Quando você olha pro Nordeste e olha pro estado, que é um estado com esse perfil de doenças negligenciadas muito voltado para a pobreza, você olha que, conforme você vai aumentando a intensidade e a duração desses eventos [de calor], a região também acaba apresentando um aumento de gastroenterites", disse.
Beatriz acrescenta que o aumento de internações por esses casos está ligado a alterações ambientais que afetam a qualidade da água e o armazenamento de alimentos. O estudo mostrou que os mais pobres são os mais afetados. Na região do semiárido, o risco de morte pode aumentar em 17% para pessoas sem escolaridade, reforçando que a desigualdade social amplifica a vulnerabilidade climática.
Gestantes e Calor Extremo em Teresina
Outro estudo publicado em 2025, fruto de um memorando de entendimento entre a Prefeitura de Teresina e o Fundo de População da ONU (UNFPA), avaliou o impacto do calor extremo em mulheres grávidas e criou uma base de dados primários sobre o tema. A pesquisa ouviu 411 mulheres em 75 Unidades Básicas de Saúde (UBS) da capital piauiense.
Liderado pela arquiteta e urbanista Elisa Carvalho, o levantamento derrubou a ideia de que o teresinense, por conviver historicamente com altas temperaturas, não sofre com o calor. Os dados mostraram que 89% das entrevistadas declararam que o clima impacta diretamente sua saúde física e 83,7% afirmaram que o calor afeta o bem-estar de forma negativa.
Elisa apontou que o dado mais crítico revelado foi o hiato entre o sofrimento das pacientes e a orientação clínica: 91% dessas mulheres nunca conversaram com um profissional de saúde sobre o impacto do calor na gravidez, e 84% relataram não ter acesso adequado a informações sobre como lidar com o calor durante a gestação.
"Nós partimos do pressuposto de que existia e existe em Teresina uma naturalização do calor. Nós, teresinenses, temos essa tendência... mas essa hipótese de que o calor era normalizado não se confirmou. Quando a gente perguntava se essa gestante gostaria de participar da pesquisa sobre o calor, a maioria das pessoas entrevistadas já começavam as queixas antes mesmo de começar a falar sobre o trabalho [responder o questionário]. Isso já foi pra gente um grande achado.", relatou Elisa Carvalho.
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