Material que envolve Ciro Nogueira (PP-PI) faz parte de uma conversa maior que, segundo o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pode levar à revisão do acordo de delação da JBS

Na
gravação entregue pela JBS na semana passada à PGR (Procuradoria-Geral
da República), o executivo do grupo J&F, controlador da JBS, Ricardo
Saud, contou ao dono da empresa, Joesley Batista, que entregou R$ 500
mil em mãos ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), em uma mala, em março
passado.
O áudio de 32
minutos, parte de uma conversa maior que, segundo o procurador-geral da
República, Rodrigo Janot, pode levar à revisão do acordo de delação da
JBS, foi divulgado nesta terça-feira (5) pelo site da revista "Veja".
Neste trecho não há menções a ministros do Supremo Tribunal Federal
(STF).
Segundo Saud,
o senador teria lhe contado na ocasião que a construtora Odebrecht
ofereceu fazer pagamentos no exterior em troca de "um roubo" não
explicado na gravação, e que o senador teria recusado a oferta.
O áudio,
contudo, indica que a conversa entre Saud e Nogueira não foi gravada
porque o executivo da J&F se confundiu e não conseguiu acionar o
gravador. Ele já preparava material para usar no acordo de delação
premiada com a PGR, que seria fechado no mês seguinte. No acordo, Saud
disse que Nogueira recebeu R$ 42 milhões da empresa de carnes para o PP,
incluindo R$ 2,5 milhões, em espécie.
A seguir, trechos da conversa entre Saud e Joesley:
"Saud:
[Mexendo no gravador] Ah não, pelo amor de Deus, não faz isso comigo,
não. Eu não perdi essa gravação, não. Eu estava sem óculos... Eu não
acredito, não é possível. [chama um funcionário para resolver o
problema] Não, o que eu conversei com ele ali [Ciro Nogueira] é muito
sério, acabou, morreu, derrubou tudo. Eu quero ouvir agora, como é que
ouve isso?
Joesley: Tá ligado?
Saud: É que
estava sem óculos, né, e agora eu subi, eu puxei [uma tecla do gravador]
pra cá. Se eu puxei pra cá, eu tinha ligado agora [o gravador]. [O
senador] pegou a mala, já marcou de 15 em 15 dias, que ele vai marcar
uma putaria para nós, só... [Interrompe] Tá gravando ainda aí?
Joesley: Não.
Saud: Só
'triple A', só sem nível... tal. Ou ele ou o irmão, mas ele mesmo
preferi vir e tal. 'Ninguém foi tão correto quanto você e tal'. Ah, não
faz isso comigo, não [reclamando do gravador].
Joesley: Não é de 15 em 15 dias?
Saud: Não,
não. [chama o funcionário] Vai usar isso aqui? Não é possível, velho,
que eu errei assim. Conversou ali em cima que você precisa de ver, você
não acredita. Que a Odebrecht queria dar pra ele... Precisa me ajudar a
defender isso, cara. 'A Odebrecht queria me dar'. Eu falei para ele:
'Ciro, tenta receber da gente aqui'. A Odebrecht queria dar para ele 40
milhões lá fora. Fez toda a papelada, tal, a Odebrecht achando que ele
iria roubar, ele não roubou, ele não aceitou, tal. Pegou a mala, fui lá,
pus, eu falei: 'Ó, leva aí a roupa da minha irmã'. 'Muito obrigado, e
tal'. [inaudível] Passar o final de semana.
[Joesley fala ao telefone]
Saud: Não vou passar pro computador, não, vou ouvir no pen drive.
Joesley: Não fica no computador, eu sei, mas eu acho que tem que descompactar.
Saud: Eu fiz um serviço tão bem feito ali com ele. [...] Ele não queria levar o dinheiro.
Joesley: Por quê?
Saud: [Ele
disse] 'Não, deixa aí com vocês, eu prefiro tal'. Eu falei: 'Olha, Ciro,
agora você leva. Tá aqui os 500, você leva, e dali a gente se encontra,
faz essa parte [inaudível] e você pega'. [...] Ele falou 'não, acertei
com [inaudível] uma conta corrente. Deixa aí'. Eu falei: 'Não, ué'.
'Esse carro é meu'. 'Então põe aí'. Eu pus. E ele falou: 'Vou te
apresentar meu irmão, Ricardo, que só você que é da minha confiança e
meu irmão. Pronto, vocês dois. De 15 em 15 dias?' Pode. Eu falei: 'Não,
vamos fazer o seguinte, vamos fazer nós dois mesmos que nós vamos para a
putaria e tal'. Então vamos nós dois mesmo.
Joesley: Eu sempre digo isso [interrupção].
Saud: Falou
da Odebrecht, que a Odebrecht queria que ele roubasse um dinheiro. 'Nós
vamos ter que... aquele negócio do Cade lá de novo. A gente tem que te
pagar alguma coisa'. [Ele respondeu] 'Não'. 'Esse negócio é meu e do
Joesley, nós fizemos um negócio aí por fora, tal, não preocupa com isso,
não, isso aí não vou cobrar de jeito nenhum. Ó, você sabe que a gente
nunca deixou de te pagar nada'. [Falando para Joesley] Cara, nós temos
que fazer isso, [interrupção] conversar com o Janot rápido essa reunião
para ver [interrupção] o Ministério Público vai continuar a desconfiar
de nós.[...]
Saud: Você não fica muito tenso não, na hora?
Joesley: Não, só por um motivo [interrupção]
Saud: [funcionário entra na sala] Um computadorzão desse?[...]
Saud: O Marcelo subornando, pagando no exterior, tal.
Joesley: Não,
não vai precisar nada disso. Tem três anos que nós está esperando
resolver essa porra e nada resolve.[liga o computador para ouvir uma
reportagem no 'Jornal Nacional' sobre a Operação Carne Fraca. Comentam
sobre a reportagem e sobre riscos para ele] Se caracterizar a
organização... Decretou a organização criminosa, aí...
Saud: [comentando a reportagem] Por que [a TV] não deu o nome das unidades? E a BR Food?
Joesley: Teve, foi o primeiro [citado]."
Fonte: JL/Folha
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