O presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), renunciou há pouco à presidência da Casa.
"Resolvi
ceder ao apelos generalizados dos meus apoiadores [...] Somente a minha
renúncia poderá pôr fim a esta instabilidade sem prazo. A Câmara não
suportará infinidamente", disse, ao ler sua carta de renúncia em
entrevista à imprensa no Salão Nobre da Câmara. Ele informou ter
encaminhado a carta ao primeiro-vice-presidente da Casa.
Ao
ler a carta, Cunha disse que é alvo de perseguição por ter aceito a
denúncia que deu início ao processo de impeachment de Dilma Rousseff.
"Sofri e sofro muitas perseguições em função das pautas. Estou pagando
alto preço por dar início ao impeachment", disse, ao emocionar-se, pela
primeira vez, em alguns momentos.
O
peemedebista disse também que sempre falou a verdade. "Comprovarei
minha inocência nesses inquéritos. Não recebi qualquer vantagem indevida
de quem quer que seja", disse.
Eduardo
Cunha chegou no início da tarde pela chapelaria da Câmara, passou na
Secretaria-Geral da Mesa e marcou a entrevista à imprensa no Salão Nobre
da Casa, apesar de ter sido autorizado pelo Supremo Tribunal Federal
(STF) a circular na Câmara apenas para se defender do processo de
cassação no Conselho de Ética ou na Comissão de Constituição e Justiça
(CCJ).
Em ocasiões anteriores, por várias vezes, Cunha negou que iria renunciar.
Com
a decisão de Cunha de deixar a vaga, a Câmara terá que convocar novas
eleições no prazo de até cinco sessões plenárias – deliberativas ou de
debates com o mínimo de 51 deputados presentes - para uma espécie de
mandato-tampão, ou seja, para um nome que comandará a Casa até fevereiro
do próximo ano quando um novo presidente será eleito.
Com
a renúncia, pode se encerrar o impasse sobre a permanência de Waldir
Maranhão (PP-MA) no comando da Câmara. Maranhão assumiu o cargo desde
que Cunha foi afastado da presidência da Câmara pelo Supremo Tribunal
Federal (STF).
O
descontentamento dos deputados com a condução de Maranhão provocou,
inclusive, um acordo informal para que ele não presida as sessões de
votações. Todas as vezes em que Waldir Maranhão tentou quebrar este
acerto, os parlamentares se recusaram a discutir e votar matérias
importantes até que ele deixasse a Mesa do Plenário, que estava sendo
revezada com o primeiro-secretário, Beto Mansur (PRB-SP) e o segundo
vice-presidente da Mesa Diretora da Câmara, deputado Fernando Giacobo
(PR-PR) – possíveis candidatos à vaga provisória da presidência.
Eduardo
Cunha está no quarto mandato, iniciado no PP e depois migrou para o
PMDB no período em que o partido estava dividido entre apoio ao
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a possibilidade de uma
candidatura própria. Na eleição de 2006, Cunha integrou o grupo que
militou pela candidatura própria do PMDB mas, a partir de 2007 com
vitória de Lula no segundo turno, a legenda foi para a base do governo.
Eleito
presidente da Câmara em primeiro turno no dia 1º de fevereiro de 2015,
Cunha recebeu 267 votos e derrotou três candidatos, entre eles, Arlindo
Chinaglia (PT-SP), que era o candidato do Palácio do Planalto na época,
mas que obteve apenas 136 votos. Durante a disputa e nos meses
seguintes, Cunha repetiu em diversos episódios que o governo de Dilma
Rousseff resistiu fortemente à sua candidatura à presidência da Casa, o
que, segundo ele, justificou a resistência sofrida por parte da base
aliada na época.
O
comando da Câmara é exercido por dois anos, mas nos primeiros meses
Cunha já começou a sentir a pressão suscitada pelas suspeitas de seu
envolvimento em negócios ilícitos envolvendo contratos de empresas com a
Petrobras e existência de contas secretas no exterior. Essas denúncias,
aliada a reclamação de parlamentares que o acusaram de beneficiar um
grupo de deputados e conduzir as votações na Casa, serviram como estopim
para o início e avanço do processo de cassação de seu mandato.
Processo de cassação
O
processo para afastar definitivamente o peemedebista começou em outubro
do ano passado, quando o PSOL e a Rede entraram com uma representação
contra Cunha alegando que ele havia mentido à Comissão Parlamentar de
Inquérito (CPI) da Petrobras, quando negou ser o titular de contas no
exterior. No processo, que ficou marcado como o mais longo do colegiado,
durando oito meses em função do que adversários classificaram de
manobras de aliados de Cunha, a cassação acabou sendo aprovada no dia 14
de junho, por 11 votos contra 9, no Conselho de Ética.
A
defesa de Cunha entrou com um recurso na Comissão de Constituição e
Justiça (CCJ) para tentar reverter o resultado. Foram elencados mais de
10 pontos em que Cunha questiona a tramitação do processo, entre eles, a
intenção de aditar a representação contra ele incluindo informações
sobre recebimento de propina, o ponto que trata da votação no conselho
ter sido nominal e o que aponta que Marcos Rogério (DEM-RO) que, segundo
ele, não poderia ter continuado como relator do caso, depois de ter
mudado de partido com a janela partidária e continuar ocupando a vaga do
PDT.
Ontem
(6), o relator do recurso de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que pede a
anulação da tramitação do processo de cassação dele no Conselho de Ética
da Câmara, apresentou seu parecer à Comissão de Constituição e Justiça
(CCJ). O deputado Ronaldo Fonseca (PROS-DF) acatou parcialmente o pedido
de Cunha e recomendou uma nova votação do processo no conselho. O
presidente da CCJ, Osmar Serraglio (PMDB-PR), marcou para 16h de
segunda-feira (11) a nova sessão para o início da discussão e votação do
parecer.
Para
ser aprovado, o parecer de Fonseca precisará dos votos da maioria dos
66 integrantes da comissão. Havendo pedido de vista, esta manifestação
pode ocorrer apenas na próxima semana, de acordo com a escolha do
ex-presidente da Casa. O texto será então debatido entre parlamentares e
depois o relator terá mais 20 minutos de réplica e a defesa outros 20
minutos de tréplica antes da votação.
Se
a CCJ decidir que Cunha tem razões para apontar problemas durante a
tramitação do processo, a decisão pode provocar a reabertura do caso no
conselho mas, como seria uma decisão inédita da comissão que se vê no
impasse de estar no mesmo nível hierárquico que o conselho, a decisão
final deve ser tomada pela Mesa Diretora da Câmara. Se a CCJ rejeitar os
argumentos de Cunha, o processo de cassação vai a plenário e precisa de
257 votos para qualquer que seja a decisão final.
STF
Paralelamente
ao processo de cassação na Câmara, no Supremo Tribunal Federal (STF),
Cunha é alvo de pelo menos cinco processos, além de ter sido, no último
mês, afastado do comando da Casa por decisão do ministro do STF Teori
Zavascki, relator da Operação Lava Jato. A medida, acompanhada pelos 11
ministros da Corte, foi em resposta à acusação do procurador-geral da
República, Rodrigo Janot, de que Cunha tem atrapalhado as investigações.
O
peemedebista entrou com recurso no STF pedindo para voltar à Câmara
para se defender pessoalmente no processo de cassação, o que acabou
sendo acatado pela Corte. No STF, Cunha também responde a processo em
que é acusado de ter recebido US$ 5 milhões em propina para viabilizar
contrato de navios-sonda da Petrobras. O STF já rejeitou o recurso
apresentado pela defesa do peemedebista.
Há
ainda denúncia de que Cunha recebeu propina da Petrobras em contas
secretas no exterior e acusações de que usou o mandato para beneficiar
aliados, além da suspeita de que atuou no desvio de recursos destinados à
obra do Porto Maravilha, no Rio de Janeiro.
Agencia Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário