segunda-feira, 13 de julho de 2015

Crise afeta Parque Nacional da Serra da Capivara

 
A professora Niéde Guidon: "Os donos do poder descobriram que as pessoas ignorantes e pobres são fáceis de serem manejadas. Por isso, acabaram a educação e nós estamos na situação atual"

O Parque Nacional Serra da Capivara, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade, já foi apontado como o mais bem conservado do país, graças à administração profissional da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), em co-gestão com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Mas esse troféu que reconhece a qualidade de gestão do parque está ameaçado, como ameaçado também está todo o seu patrimônio natural e cultural.
A crise financeira na reserva se repete ano a ano, mas agora já apresenta efeitos mais drásticos. Os empregados do parque começaram a ser dispensados, a partir das guaritas. Das 38, apenas 10 estão em funcionamento. As guaritas que foram abandonadas começaram a ser depredadas. Em alguns circuitos turísticos mais isolados os problemas de manutenção e conservação já começam a ser notados. São mais de 300 quilômetros de estradas internas que necessitam de constantes intervenções. 
Se não forem restabelecidos os repasses para a manutenção do parque, inevitavelmente as visitações serão suspensas. Anualmente, entre 22 e 23 mil pessoas visitam a Serra da Capivara, onde se localiza a maior concentração de sítios arqueológicos e de pinturas rupestres do mundo. Ao todo, 173 sítios arqueológicos estão abertos à visitação e precisam de diferentes ações.
A Petrobras é uma das maiores parceiras do Parque Nacional Serra da Capivara, mas, depois da sucessão de escândalos na empresa, tem reduzido seus repasses. O Governo do Piauí também vem ajudando dentro das suas possibilidades, evitando um caos ainda maior. Recentemente, o Estado liberou uma parcela de R$ 160 mil de um convênio entre a Secretaria do Meio Ambiente e a Fumdham que estava em atraso desde o governo passado. 
Para evitar um colapso do projeto, constantemente a pesquisadora Niéde Guidon, 82 anos, utiliza os veículos de comunicação do Brasil e do exterior para alertar que o parque pode ser fechado. Para quem não conhece a realidade, as "ameaças" soam como chantagem, exagero ou "mise en scène" - expressão francesa que está relacionada com encenação. Até parece, ainda, o tal "samba de uma nota só".
No último dia 20, entrevistei a professora Niéde Guidon em sua casa, em São Raimundo Nonato. Ela descreveu a situação do parque, fez um balanço de seus 40 anos de pesquisa na região e confessou que fez uma opção errada ao se mudar para a Serra da Capivara. A professora faz críticas ao sistema político.


Professora Niéde, qual é hoje a situação do Parque Nacional da Serra da Capivara? 
Niéde Guidon - A situação é muito grave. Nós temos alguns recursos do IPHAM, nós temos recursos de uma emenda do deputado Paes Landim, mas esses recursos são para manutenção de guaritas, para reformas de guaritas, para manutenção de certos locais do parque. O que nos faltam são recursos para pagar pessoal. Nós temos 28 guaritas. Somente 10 estão abertas.
Agora este mês nós recebemos 160 mil reais do governo do Piauí, mas são totais limitados. Quando você tem funcionários, você precisa pagar todo mês. De modo que, agora, nós temos que demitir mais funcionários.
Quem sustentava o parque era a Petrobras, mas já o ano passado ela enviou 400 mil reais no mês de dezembro. Este ano tornou a enviar mais 400 mil. A Petrobras nos financiava de maneira que era possível manter as 28 guaritas. Agora, com essa redução e, sobretudo, parcelamentos e atrasos no envio dos recursos, fica muito difícil manter o parque protegido.
O parque já começa a enfrentar situação de depredação? Como é isso?
Niéde Guidon - Sim, as guaritas que ficaram vazias, porque nós tivemos que despedir os funcionários, foram invadidas, e levaram as baterias e placas de energia solar,arrancaram privadas, pias, chuveiros, fios elétricos. Realmente, uma situação na qual você todo este patrimônio que pertence ao Brasil sendo completamente desprotegido.
E o que a senhora vai fazer?
Niéde Guidon - Não adianta muito. Vários ministérios já nos disseram que estão com problemas, porque tiveram redução em seus orçamentos este ano. Realmente a nossa única esperança era a Petrobras. E agora não sei. Meu pessoal aqui está trabalhando aqui com alguns especialistas para fazer alguns movimentos. Se tivéssemos doações, poderíamos continuar trabalhando para proteger todo esse patrimônio. Infelizmente, eu acho que o governo brasileiro ainda não entendeu é que a Serra da Capivara é um patrimônio mundial tombado pela Unesco e que os patrimônios mundiais no mundo todo recebem milhões de visitantes.
A firma a suíça que fez o projeto de organização do turismo aqui, em 1994, já previa que naquele momento a Serra da Capivara receberia 5 milhões de turistas, se houvesse na região hotéis de qualidade e também o aeroporto. No mundo todo, nas áreas consideradas patrimônio da humanidade, nós temos hotéis de cinco e até seis estrelas. Na África, nos temos, entende? Hotéis que ficam cheios o ano todo e os turistas levam dinheiro e geram empregos. Aqui o que desenvolveu a região foi a Serra e agora o número de desempregados cresce porque não podemos mantê-los.
A senhora sempre foi entusiasta do aeroporto. Ele está praticamente concluído e deve começar a operar em breve. Mas hoje se vive uma conjuntura diferente, com um revés na economia. A senhora ainda alimenta o mesmo entusiasmo em relação à a vinda dos turistas estrangeiros para a Serra da Capivara?
Niéde Guidon - Bem, a vinda dos turistas pode ser. O que eu estou realmente duvidosa é em relação às firmas estrangeiras que vieram até aqui interessadas em construir hotéis de cinco estrelas. O renome do Brasil no mundo todo, com todos esses escândalos que tem havido, isso vai dificultar em muito a atração de investimentos estrangeiros para o país. Vai ser mais difícil. Todos dizem que o Brasil está numa situação econômica ruim.

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