Em que pese a posição do magistrado de Niterói, com a qual concordo em gênero, número e grau, posso dizer e confessar que a exaltação do padre faz com que reflitamos sobre inúmeras questões no Brasil, que estão a afrontar a dignidade dos cidadãos
por Miguel Dias Pinheiro, advogado
O Ministério Público Federal de São Paulo ajuizou ação pedindo retirada dos símbolos religiosas das nossas repartições públicas.
O fato, então, provocou a indignação do padre Demétrius dos Santos Silva, que escreveu: “Sou Padre católico e concordo plenamente com o Ministério Público de São Paulo, por querer retirar os símbolos religiosos das repartições públicas… Nosso Estado é laico e não deve favorecer esta ou aquela religião. A Cruz deve ser retirada! Aliás, nunca gostei de ver a Cruz em Tribunais, onde os pobres têm menos direitos que os ricos e onde sentenças são barganhadas, vendidas e compradas. Não quero mais ver a Cruz nas Câmaras Legislativas, onde a corrupção é a moeda mais forte. Não quero ver, também, a Cruz em delegacias, cadeias e quartéis, onde os pequenos são constrangidos e torturados. Não quero ver, muito menos, a Cruz em prontos-socorros e hospitais, onde pessoas pobres morrem sem atendimento. É preciso retirar a Cruz das repartições públicas, porque Cristo não abençoa a sórdida política brasileira, causa das desgraças, das misérias e sofrimentos dos pequenos, dos pobres e dos menos favorecidos”.
“Embora cristão, as doutrinas católicas diferem em muitos pontos do que eu creio, mas se foram católicos que começaram este país, me parece mais que razoável respeitar que a influência de sua fé esteja cristalizada no país” - este é um trecho do artigo do juiz titular da 4ª Vara Federal de Niterói (RJ), William Douglas. O magistrado, que se diz evangélico, critica o Ministério Público Federal que pede a retirada de símbolos religiosos nos locais públicos de São Paulo.
"Querer extrair tais símbolos não só afronta o direito dos católicos conviverem com o legado histórico que concederam a todos, como também a história de meu próprio país e, portanto, também minha. Em certo sentido, querer sustentar que o Estado é laico para retirar os santos e Cristos crucificados não deixaria de ser uma modalidade de oportunismo" – acusa o juiz.
Para o magistrado, muitos que são contrários à permanência dos símbolos religiosos em repartições públicas, na verdade professam uma nova religião, a "não religião". "Todos se recordam do lamentável episódio em que um religioso mal formado chutou uma imagem de Nossa Senhora na televisão. Se é errado chutar a imagem da santa, não é menos agressivo querer retirar todos os símbolos. Não chutar a santa, mas valer-se do Estado para torná-la uma refugiada, uma proscrita, parece-me talvez até pior, pois tal viés ataca todos os símbolos de todas as religiões, menos uma. Sim, uma: a 'não religião', e é aqui que reside meu principal argumento contra a moda de se atacar a presença de símbolos religiosos em locais públicos. Quando vejo o crucifixo com uma imagem de Jesus não me ofendo por (segundo minha linha religiosa) haver ali um ídolo, mas compreendo que em um país com maioria e história católica aquela imagem é natural. O crucifixo nas cortes, independentemente de haver uma religião que surgiu do crucificado, é uma salutar advertência sobre a responsabilidade dos tribunais, sobre os erros judiciários e sobre os riscos de os magistrados atenderem aos poderosos mais do que à Justiça" - diz.
Em que pese a posição do magistrado de Niterói, com a qual concordo em gênero, número e grau, posso dizer e confessar que a exaltação do padre faz com que reflitamos sobre inúmeras questões no Brasil, que estão a afrontar a dignidade dos cidadãos.
Costumeiramente, a imprensa divulga corrupção em nosso Judiciário. Virou moda! Tem sentido a posição do padre porque o Legislativo brasileiro se transformou num “antro”, em um “báratro” de patifarias. Fala a verdade quando diz que Cristo deve ser retirado das delegacias, das cadeias e dos quartéis por onde “pequenos” e “desassistidos” têm seus direitos violados. Muito menos deixando de ser verdadeiro quando assegura que em prontos-socorros e hospitais os pobres morrem sem atendimento e que a sórdida política brasileira é a causa de todas essas desgraças, de todas as misérias, infortúnios e sofrimentos dos pequenos, dos pobres e dos desafortunados, desfavorecidos.
Em poucas linhas o padre traçou o perfil da “desgraça brasileira”, uma desonra praticada por autoridades, a síntese de todas as mazelas, que no raciocínio implícito do religioso, em um Estado laico, ninguém terá mesmo moral para se curvar às imagens santas, sobretudo de Cristo crucificado, porque diante das infames alimentadas, praticadas e engendradas nos organismos públicos isso não seria honesto, leal e cristão. Portanto, retirem Cristo daí! E já!
Fonte: JL
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