Dilma e Aécio discutiram mensalão, crise na Petrobras, falta de água em São Paulo e inflação durante encontro que pode decidir eleição
O último
debate do segundo turno da eleição presidencial deste ano foi uma
síntese dos temas e do clima tenso que marcaram a campanha. Realizado
pela TV Globo em seus estúdios no Rio de Janeiro, o encontro final entre
Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves
(PSDB), porém, teve menos marquetagem eleitoral e mais densidade
política do que os três embates anteriores desta fase decisiva.
Não faltaram
os temas explorados à exaustão durante os últimos dias, como o combate à
inflação, a crise na Petrobras e a comparação entre as gestões tucanas e
petistas. O fato novo ficou por conta do formato do debate,
determinante para que os candidatos fossem confrontados com pontos de
vista que realmente fazem diferença na vida dos brasileiros, e não
apenas no jogo eleitoral. Um questionamento sobre corrupção, por
exemplo, saído da boca de uma eleitora, deixou Dilma Rousseff mais
desconcertada do que de costume. De seu lado, Aécio também aparentou
dificuldades em responder diretamente aos eleitores. Se não conseguiram
demonstrar desenvoltura no trato direto com o eleitor, os dois também
entenderam que, frente a frente com eles, não poderia seguir a cartilha
dos marqueteiros.
Conforme as
regras, um grupo de eleitores indecisos, selecionados pelo instituto de
pesquisas Ibope, fez perguntas diretas a Dilma e a Aécio em dois blocos.
Houve também confronto direto entre os candidatos. Baixarias, ataques
ao caráter e acusações pessoais ficaram fora do debate da TV Globo. A
despeito da boa conduta dos candidatos, não faltou temperatura ao
confronto. Nos momentos mais agudos desse enfrentamento final, Dilma e
Aécio discutiram a crise ética e moral na Petrobras, a falta de água no
Estado de São Paulo e o escândalo do mensalão. O debate começou às 22h08
com audiência acima de 31 pontos, muito alta para o horário. Leia a
seguir o relato dos principais momentos:
PLATEIA - A
claque de Aécio no estúdio tinha artistas, políticos e ex-esportistas,
como o ex-jogador de futebol Ronaldo, um dos mais assediados com pedidos
de fotos e de autógrafos. Do lado petista, os lugares foram quase todos
ocupados por estrelas do partido e ministros do governo federal, entre
eles, Aloizio Mercadante
(Casa Civil). Celso Kamura, cabeleireiro da presidente era um dos
convidados de honra. Os dois debatedores foram saudados com aplausos
quando adentraram o estúdio poucos minutos antes das 22h.
O marqueteiro de Dilma, João Santana,
figura-chave desta eleição, permaneceu ao lado da candidata até os
últimos instantes antes do início do debate. Aécio preferiu ficar
sozinho, concentrado. O mediador do debate, o jornalista William Bonner,
perguntou a Dilma se a poltrona destinada a ela estava confortável.
"Mais ou menos", respondeu a presidente.
PRIMEIRO BLOCO - Os
candidatos perguntaram diretamente um ao outro. Logo de início, Aécio
aproveitou suas falas para acusar Dilma de fazer uma campanha de baixo
nível contra ele e questioná-la sobre o escândalo da Petrobras: "Essa
campanha vai passar para a história como a mais sórdida já vista. Uma
revista denuncia hoje que a senhora tinha conhecimento sobre a corrupção
na Petrobras. É a oportunidade de a senhora responder à população".
"Essa revista faz calúnia e difamação, e você endossa com a sua
pergunta. Eu mostro a minha inteira indignação. Tenta dar um golpe
eleitoral, e não é a primeira vez que isso acontece. O povo não é bobo. O
povo sabe que está sendo manipulado, pois não há nenhuma prova. Eu
acionarei a Justiça e tenho certeza que o povo brasileiro vai mostrar a
sua indignação no domingo", respondeu a presidente. Conforme a revista Veja,
o doleiro Alberto Yousseff, preso em Curitiba (PR), afirmou à Justiça
que Dilma e Lula tinham conhecimento do esquema de corrupção.
A troca de
acusações em relação ao nível das campanhas prosseguiu. "Hoje (24), no
comitê do seu partido, foram encontrados boletins apócrifos sobre a
minha pessoa. A senhora acredita que esta seja a melhor forma de fazer
campanha?", questionou Aécio. Dilma respondeu acusando duas publicações:
"Eu fico muito estarrecida com o senhor porque na minha vida política e
pública jamais persegui jornalista e reprimi a imprensa. Tenho
respeito, pois vivi os tempos escuros deste país. O senhor cita duas
revistas (Isto É e Veja) que sabemos para quem fazem campanha".
O tema
baixaria eleitoral deu lugar a infraestrutura e economia, com maior
destaque para o controle da inflação. "A senhora disse nos últimos
debates que a inflação está sob controle. Eu não acredito nisso,
candidata. Eu lhe dou mais uma oportunidade. O que seu governo, se
eleito, fará para controlar a inflação?", questionou Aécio. Dilma
respondeu atacando o PSDB. "Nos últimos dez anos mantivemos a inflação
dentro do limite da meta. Quem não mantinha era o governo FHC. Em 2001,
ela já estava em 7,7%. Vocês aumentaram imposto e deixaram uma dívida
pública muito maior do que receberam", disse ela. Em sua tréplica, o
candidato tucano citou o Plano Real, lançado pelo governo Itamar Franco
que tinha Fernando Henrique Cardoso como ministro da Fazenda. "A senhora
quer dizer, então, que o PT controlou a inflação? E não o Plano Real? A
história não se reescreve, presidente", afirmou Aécio.
SEGUNDO BLOCO - Reservado
às perguntas dos eleitores indecisos, ele também teve clima quente
quando o assunto foi corrupção. Após os dois candidatos terem respondido
sobre habitação e educação, com Dilma propagandeando o programa Minha
Casa, Minha Vida e Aécio prometendo creches abertas até as 20h, um dos
indecisos levantou o tema do combate à corrupção. "Você expressa o
sentimento de milhões de brasileiros que aguentam os casos de corrupção.
Eu vejo a candidata Dilma apresentar um conjunto de propostas, que já
estavam em tramitação no Congresso, e não foram aprovados até agora.
Existe uma medida que está acima de todas as outras para acabar com a
corrupção do governo: vamos tirar o PT do governo", respondeu Aécio ao
formulador da questão. A presidente, visivelmente nervosa, disse: "Veja
você que quem fala é o representante de um partido que tinha uma
prática de engavetar investigações. Isso levou o Brasil a sempre ter um
conjunto de investigações que nunca ninguém viu. Todos soltos. Eu
tenho um orgulho, nunca compactuei com corrupto e corrupção".
TERCEIRO BLOCO - Voltaram
os enfrentamentos diretos entre os candidatos, que trouxeram para o
centro do debate a grave crise hídrica de São Paulo, Estado governado
pelo PSDB desde 1995. "O que o senhor acha da falta de água em São
Paulo, foi problema de planejamento?", questionou Dilma. "O governo de
São Paulo fez o que estava ao seu alcance, e o povo decidiu nas urnas
quem estava com a razão. Infelizmente, não tivemos a parceria da ANA.
Por que será que a Agência Nacional de Águas não estava planejando? Na
ANA não foram colocadas pessoas por sua qualificação, mas por sua
indicação", respondeu Aécio.
O mensalão,
maior escândalo de corrupção da gestão Lula (2003-2010), sumido dos
debates anteriores, provocou momento de tensão. "Para a candidata Dilma
Rousseff, José Dirceu (ex-ministro da Casa Civil da gestão Lula) foi
punido justamente?", questionou Aécio. A presidente preferiu não
responder e acusou o PSDB: "Houve o julgamento do Mensalão e é
necessário dizer que eles foram condenados e foram para a cadeia. Já o
Mensalão do seu partido não foi julgado e estão soltos por aí. Eu posso
citar os cinco processos que envolvem líderes do seu partido e que estão
todos soltos". O bloco teve ainda discussões a respeito da reforma
política, com Aécio defendendo o fim da reeleição, e Dilma, o fim do
financiamento das campanhas por empresas privadas.
QUARTO BLOCO - Os
eleitores indecisos voltaram a questionar os candidatos. Um dos temas
foi a segurança pública. "Essa foi a maior preocupação no nosso programa
de governo. Anunciei uma política de fronteiras, ao contrário do que
hoje acontece com as nossas fronteiras, que não são guardadas. Teremos
uma política diferente com os países que produzem drogas. Nós temos
também que fazer uma profunda reforma no nosso Código Penal para que não
haja o sentimento de impunidade e insegurança que acontece hoje. O
governo federal é o que mais arrecada, porém gasta 13% do que se gasta
com segurança pública no Brasil. Seremos mais solidários com esse
gasto", afirmou Aécio. "O Brasil hoje tem o grande desafio, que é o
combate à violência e às drogas. Conseguimos apreender 640 toneladas de
drogas, além de armas, pessoas e veículos. É fundamental que haja uma
maior participação da União. Fazemos hoje uma coisa chamada garantia da
lei e da ordem", disse Dilma.
Em suas
considerações finais, Dilma e Aécio fizeram um último apelo aos
eleitores que domingo decidirão o futuro do país. "O Brasil que quer
crescer, melhorar, e faz isso com muita autoestima. É o Brasil da
educação e da cultura. Da inovação e da ciência. Eu deixo aqui minha
palavra. Nós que lutamos tanto para melhorar de vida, não vamos permitir
que nada nem ninguém tire de você o que você conquistou. Não vamos
permitir que isso volte atrás. Vamos garantir que haverá um futuro
nosso, um futuro de esperança e de unidade", afirmou Dilma. "Estou
extremamente honrado em andar pelo país e ver surgir uma confiança novalto com a mesma força que meu avô nos conduziu à democracia", afirmou Aécio.a.
Acompanhando meu avô Tancredo há 30 anos, tive essa oportunidade de
andar pelo país. Se eu merecer o seu voto, eu subirei a rampa do Palácio
do Planalto
Fonte: JL/Globo
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