Apenas 15 empresas responderam por 32,5% de tudo o que foi doado oficialmente para as campanhas em 2010
O financiamento
das campanhas eleitorais é o ponto mais sensível da discussão sobre uma
reforma política, reaberta pela presidente Dilma Rousseff em seu
primeiro discurso como reeleita. O sucesso das campanhas, cada vez mais
caras, está diretamente ligado ao volume de recursos que elas
movimentam, sobretudo a dos parlamentares. É o que apontam resultados
preliminares de pesquisas que estão em andamento no Brasil apresentadas
na manhã de quarta-feira em um grupo de trabalho dedicado ao tema no
Encontro Anual da Associação Nacional de Pos-Graduação e Pesquisa em
Ciências Sociais (Anpocs), em Caxambu (MG).
O fim das
contribuições presidenciais para as campanhas, prestes a ser
sacramentado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), altera
substancialmente a forma como as campanhas eleitorais se organizam hoje.
Um estudo de pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) que
tenta mapear as redes de financiamento dos partidos com base nos dados
da eleição de 2010 mostra que a participação de pessoas físicas nas
listas de doadores não é tão pequena como se imagina. Foram 212,5 mil em
2010, quase 80% do total. No entanto, as 22,5 mil empresas que
contribuíram com as campanhas responderam por 75% de tudo o que foi
arrecadado pelos comitês financeiros dos candidatos e dos partidos
naquela eleição, cerca de R$ 3 bilhões. Outro estudo, da Unicamp, mostra
que apenas 15 empresas responderam por 32,5% de tudo o que foi doado
oficialmente para as campanhas em 2010, uma concentração que os
especialistas esperam se repetir na prestação final de contas das
eleições deste ano.
O trabalho
apresentado por Rodrigo Rossi Horochovski, pesquisador da UFPR, revela
que as redes de financiamento dos partidos não envolvem apenas as
empresas e os doadores individuais. Há também os repasses de um partido
para outro, por meio de coligações, e para os candidatos, por critérios
que não são claros. Dessa forma, os recursos das empresas envolvem numa
mesma rede partidos antagônicos, como PT e PSDB, já que a lógica
empresarial é distribuir recursos entre os partidos mais fortes, com
maior chance de vitória. Já o dinheiro doado por pessoas físicas
estabelece redes cuja organização está mais ligada ao espectro
ideológico das legendas.
— Os agentes
partidários atuam como intermediadores, distribuindo majoritariamente
recursos oriundos das empresas, que também fazem suas contribuições
diretamente aos candidatos. Nessa rede, não existe a dimensão
ideológica. Os partidos mais conectados são PT e PSDB. Há muitos pontos
de encontro entre doadores e partidos de tendências opostas — explicou
Horochovski. — O agrupamento é por desempenho eleitoral, que se confirma
no resultado. Ou seja: quem manda nas eleições são as empresas. Elas
estabelecem quem é eleito.
Nesse
sentido, acrescenta o pesquisador, a viabilidade eleitoral de um
candidato ou de um partido está ligada à participação nessa rede de
financiamento, que é operacionalizada por meio das coligações. Isso
ajuda a explicar a disciplina com que parlamentares ou partidos pequenos
seguem líderes partidários no Congresso para formar maiorias, por
exemplo. Os políticos infiéis ficam marginalizados dessas redes e têm
menos chance de se reeleger.
Os
pesquisadores da Unicamp João Paulo Viana, Rodrigo Dolandeli e Jeison
Heiler resolveram estudar a outra ponta do custeio das campanhas: como o
dinheiro arrecadado é gasto. Eles perceberam que a maioria dos
candidatos a deputado gasta mais com comunicação e publicidade. O que
faz diferença é o gasto com estrutura logística e de pessoal das
campanhas.
— Vemos que,
para ser eleito, um candidato precisa acompanhar a tendência de gastos
em estrutura dos seus principais opositores. Não adianta colocar muito
mais dinheiro em publicidade, que é o padrão maior de gasto. Apesar de o
volume total da despesa eleitoral ser uma variável significativa, a
despesa com estrutura se mostra mais importante (para o sucesso
eleitoral) — diz Rodrigo Dolandeli.
Marcos Campos, professor da
Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), chamou a atenção para o
financiamento dos partidos fora do período eleitoral. Diferente das
doações para campanhas, as de empresas para os partidos são ilimitadas.
Os dois pesquisadores estudaram a ramificação das legendas em diretórios
estaduais e municipais e perceberam que existe um movimento de abertura
e fechamento de unidades partidárias nas cidades. Entre 2010 e 2014, o
numero de diretórios (nacionais, estaduais e municipais) subiu de 52.918
para 60.562. Em todos há o repasse de contribuições locais para a
direção nacional e também e recebimento de recursos, embora a maior
parte das legendas desrespeite a regra de redistribuir regionalmente o
dinheiro público do fundo partidário.
— Os
diretórios funcionam basicamente como franquias, mas recebem recursos
nacionais de acordo com o interesse de cada comando nacional – explicou
Mauro Campos, acrescentando que a maior parte da documentação de
prestação de contas de diretórios municipais é falha. — Cada diretório
tem uma estrutura diferente. Não estamos falando de 32 partidos no país,
mas de 60 mil para serem fiscalizados e os juízes não conseguem fazer
isso adequadamente.
Fonte: JL/Globo
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