
Um casamento coletivo está programado para sábado (13), na cidade de Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul. A ideia era realizar a união de vários casais, inclusive de homossexuais. Mas o lugar escolhido para a cerimônia está criando a maior polêmica.
A data já está marcada. E os convites já estão na rua. Mas o casamento coletivo, para legalizar a situação de quem não tem dinheiro para pagar as despesas, virou caso de polícia em Santana do Livramento, a maior cidade da fronteira do Brasil com o Uruguai.
Ligações anônimas ameaçam colocar fogo no local onde a cerimônia está marcada para acontecer, em plena época de lembrar a Revolução Farroupilha, período em que os gaúchos lutaram contra o império. Lá em 1835.
O problema não é o casamento, é o local onde ele vai ser realizado: dentro de um CTG - Centro de Tradições Gaúchas - que tem uma cartilha rígida de comportamento para os associados. Muitas vezes, eles não podem se abraçar, se beijar. Homem de brinco lá dentro, nem pensar. Imaginem então receber pessoas do mesmo sexo para casar.
Aí começou a polemica. A ideia do casamento coletivo aberto para todos os tipos de casais foi da juíza da cidade. A primeira cerimônia, realizada em março, foi tranquila porque aconteceu no Fórum. Agora, o problema é o CTG.
“O meu desejo era realizar esse evento durante o mês de setembro, nos festejos da Semana Farroupilha, como uma forma de homenagear a nossa cultura local e o nosso tradicionalismo”, afirmou a juíza Carine Labres.
Todos os dias o casamento é notícia nos jornais locais por conta das ameaças e declarações feitas por aqueles que não concordam com a juíza.
“Os CTGs foram criados para a defesa desta família. A família que nós conhecemos como única. O homem e a mulher que têm filhos”, explicou Rui Francisco Ferreira Rodrigues, presidente da Associação Tradicionalistas de Santana do Livramento.
Fantástico: O casamento não sai?
Rui Francisco Ferreira Rodrigues: Eu digo que não.
E a juíza que esperava a inscrição de quatro casais homossexuais para o casamento, depois de toda a polêmica, recebeu apenas a inscrição de dois. E um acabou desistindo essa semana. Restaram a Solange e a Sabriny.
Fantástico: Vocês chegaram a pensar em desistir algum momento depois de terem feito a inscrição?
Sabriny Benites, funcionária de pet shop: Eu não pensei, em nenhum momento.
Solange Rodrigues, funcionária de pet shop: Não.
Fantástico: Mas, ficou em dúvida?
Solange Rodrigues: Fiquei em dúvida.
Fantástico: Ficou com medo?
Solange Rodrigues: Sim, fiquei com medo de sair na rua.
Sentimento que não experimentaram a Daniela e a Mariana, que fizeram parte do primeiro casamento coletivo da cidade.
“Tu não fez nada errado, tu não tá fazendo nada errado”, ressaltou Daniela Maciel, dona de casa.
No CTG que vai abrir as portas para o casamento, sempre tem gente. O próprio patrão, como é chamado o administrador do local, assa o churrasco ali mesmo, todos os dias, depois que recebeu ameaças anônimas, por telefone, de que tomaria uma surra e o CTG seria incendiado.
“A gente fica preocupado porque a ideia foi inocente, foi o CTG fazer a sua parte social, regularizar a situação das famílias já existentes. Essa era a ideia. Jamais ferir a tradição, pelo contrário, fazer a parte social do CTG. Puro preconceito”, afirmou Gilberto Gisler, patrão do CTG Sentinelas do Planalto.
Ocorrência policial registrada, agora é esperar o dia 13 de setembro. Data em que a juíza pretende literalmente sitiar o CTG. Vai rodear o prédio com policiais militares e só entra na festa quem tem nome na lista, cerca de 300 convidados.
“A ideia era celebrar uma festa e eu espero que isso possa se tornar realidade. Qualquer crime contra a honra vai ser punido de acordo com aquilo que prevê o Código Penal, assim como qualquer agressão física ou qualquer outro ato que venha acontecer que tenha conotação homofóbica. Da onde que tradição é sinônimo de preconceito? Tradição não é, nunca foi e nunca será sinônimo de preconceito”, completou a juíza Carine Labres.
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