sábado, 8 de março de 2014

O Brasil reage revoltado contra os racistas de Bento Gonçalves e de Mogi Mirim. Mas, para variar, Pelé se cala. As preocupações de Edson Arantes do Nascimento são outras. Seu silêncio é um grito indecente para quem decide ouvir…

"Antes de ser jogador sou ser-humano, pai, marido, cidadão, carioca de origem e santista de coração. Tenho a pele negra, cabelo afro e visto o mesmo manto branco que vestiu o Rei. Carrego orgulho no peito e sou grato a Deus por tudo isso."

As palavras são de Arouca, magoado pelas ofensas racistas em Mogi Mirim.

Mas orgulhoso por ser negro.

Assim também por ter a honra de vestir a camisa do Santos.

Que chama de manto por ter coberto Edson Arantes do Nascimento.

O melhor jogador de todos os tempos.

E negro como Arouca.

Tem a sorte de ser milionário, saudável e lúcido aos 73 anos.

Ele diz que tem três corações por ter nascido na cidade mineira.

Será que nenhum deles foi atingido pelo que aconteceu em Mogi Mirim?

Os gritos de 'macaco, macaco, macaco' dirigidos ao jogador não o enojou?

O tão criticado Marco Polo del Nero agiu rápido.

E desta vez merece ser elogiado.

Interditou o palco da ofensa, o estádio.

A Polícia Militar investiga buscando os racistas.

Por que Pelé não abre a boca em relação a Marcio Chagas da Silva.

Árbitro gaúcho que passou por uma inaceitável humilhação.

Apitando Esportivo e Veranópolis enfrentou situação irreal.

Os torcedores de Bento Gonçalves duelavam para mostrar quem era mais racista.

"Tem de matar esse macaco"...

"Volta o circo, animal"...

"Preto sujo, seu lugar não é na selva."

Eles desciam das arquibancadas e ficavam grudados nos alambrados.

Soldados ouviam as ofensas e nada fizeram.

Isso apesar de o racismo no Brasil ser crime inafiançável.

Ao chegar no carro o encontrou amassado por pontapés.

Riscado, com ódio.

Várias bananas em cima do veículo.

E algumas delas dentro do escapamento.

Ele fotografou para não deixar dúvidas.

Fica mais do que claro a conivência com tudo o que aconteceu.

Premeditação.

Até porque cachos de bananas não são vendidos em estádios.

E o carro do árbitro sempre fica em área isolada dos torcedores.

Quais foram as providências da diretoria do Esportivo?

Primeiro divulgar uma nota oficial.

Dizendo que iria investigar as alegações de Márcio.

Ou seja, não confirmou o que foi público.

Depois a diretoria teve coragem de procurar a polícia.

Fez um Boletim de Ocorrência.

Registrado pelo vice Vladimir Santos de Oliveira.

Mas não contra os racistas.

Acusava o árbitro Márcio Chagas de difamar o Esportivo.

Em outras palavras, deixa claro que o juiz estaria mentindo...



Diante do espanto e revolta geral no Rio Grande, o clube recuou.

Retirou o B.O. e começou a fazer sua obrigação.

Trabalhar para descobrir quem foram os racistas.

E olha que não deu trabalho...

A direção do clube já passou dois nomes para a polícia.

Enquanto isso, o presidente da Federação Gaúcha dorme em berço esplêndido.

Por coincidência, Francisco Novelletto se diz candidato à CBF.

E concorrente de Marco Polo.

Mas não teve firmeza para fazer o óbvio, interditar o estádio.

Punir severamente o Esportivo.

E de maneira sumária.

Ele tem essa possibilidade.

Mas o que fez foi marcar um julgamento na próxima quinta-feira.

É óbvio que para tentar amenizar a punição, agora a diretoria do clube age.

Primeiro ficou impassível diante das ofensas e da depredação do carro.

Depois fez um B.0. contra o árbitro.

Só agora, perto de ser punido, o Esportivo acordou.

Até mesmo o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, deixou a estagnação.

"A agressão racista não atinge apenas aquele a quem é dirigida.

Fere toda a população brasileira e sua identidade de povo miscigenado.

A Justiça deve punir exemplarmente o comportamento inaceitável desses criminosos."

Tocou no assunto que todos fogem.

A impunidade que domina este país.

E quanto a Pelé?

Tão negro quanto Arouca, Tinga, Márcio Chagas.

Por que se cala?

Foram brasileiros que foram humilhados.

Ele tem a nítida noção de quanto valem suas palavras.

Sua imagem.

Se não soubesse não cobraria tão caro cada propaganda que faz.

Foi o futebol que lhe proporcionou a vida maravilhosa que vive.

Pelé deveria ser mais generoso com seu país.

Se preocupar com as pessoas humilhadas, massacradas.

Não olhar para o outro lado.

Fingir que nada acontece.

Como foi assim no período da Ditadura Militar.

Ou ficar contra as manifestações que questionam os gasto da Copa.

Mesmo com o filho preso por causa das drogas, ele fechou a boca.

Não questionou de verdade a falta de ação do governo contra o tráfico.

Mas se calar diante das ofensas racistas é triste demais.

Arouca o citou da maneira que mais gosta e merece.

O chamou de Rei.

Pelé foi e sempre será o rei do futebol.

Mas fora dos gramados sua postura é decepcionante.

Frustra a cada dia quem o cultuou no gramado.

Perde oportunidades históricas de marcar sua posição.

Ele é o maior ídolo do Brasil em todos os tempos.

Mas prefere se calar.

Continuar a lucrar com que fez nos gramados há quase 40 anos.

É um direito seu.

Triste para os torturados e mortos pela Ditadura.

Constrangedor aos cada vez mais drogados neste país.

Lamentável para os indignados com a farra da Copa neste país.

E principalmente dolorido para os negros.

Homens que têm o mesmo tom de sua pele.

Brasileiros que são humilhados por outros brasileiros racistas.

Mas Edson Arantes do Nascimento segue impassível.

Prefere falar sobre amenidades.

Sobre quem vai ganhar a Copa, sobre as belezas naturais do Brasil.

E continuar a lucrar muito com o futebol.

O resto...

Não o interessa.

O silêncio de Pelé é um berro indecente.

A quem se dá ao trabalho de ouvi-lo...
2reproducao5 O Brasil reage revoltado contra os racistas de Bento Gonçalves e de Mogi Mirim. Mas, para variar, Pelé se cala. As preocupações de Edson Arantes do Nascimento são outras. Seu silêncio é um grito indecente para quem decide ouvir...

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