397 municípios brasileiros sofrem com o problema. No Piauí, prefeituras chegam a gastar R$ 9 mil com equipe de plantonista que presta atendimento duas vezes por semana
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a milagrosa cruz da matriz do morro mais alto de Santa Cruz dos
Milagres, no interior do Piauí, ajuda quando a energia some e o posto de
saúde fica no escuro. Distante 168 km de Teresina, a cidade tem cerca
de 4 mil habitantes e integra uma lista de 397 municípios do País que
sofrem de outro apagão: o de médicos. Sem hospital e só com um posto de
atendimento básico, a cidade não tem profissionais residentes, recebe
demanda de 40 casos diários e “importa” profissionais da capital.
Para garantir
atendimento em Santa Cruz, ele tem de recorrer a dois plantonistas de
Teresina, que, no curto trajeto, gastam até 3 horas na estrada para
trabalhar na cidade, um centro religioso nordestino.
A prefeitura
gasta R$ 9 mil mensais para um médico visitar a cidade por dois dias da
semana. “Imagine a economia se o médico viesse morar aqui”, questionou o
prefeito. O custo é coberto pelo programa Estratégia de Saúde da
Família (ESF), que repassa aos municípios pouco mais de R$ 10 mil por
mês para pagar uma equipe médica itinerante.
Como um polo
regional de medicina do Nordeste, que atende a demandas de saúde também
de municípios do Maranhão, Teresina exporta plantonistas. Eles viajam
para atender em municípios como Santa Cruz e Juazeiro do Piauí,
presentes na lista de cidades sem médicos organizada pela Confederação
Nacional dos Municípios com dados do DataSUS.
Precariedade.
Na quinta-feira passada, em Santa Cruz, quando a luz piscou e foi
sumindo até apagar, às 18h45, o cirurgião Márcio Ramísio, de 35 anos,
sete deles com o estetoscópio no pescoço, apontou para o teto da sala e
disse: “Como é que um médico vai querer vir para o interior desse
jeito?”.
Ramísio não é
de Santa Cruz. Ele até gosta da cidade e tem veneração pela
religiosidade local, que atrai milhares de fiéis. “Eu mesmo, quando fiz
vestibular, fiz promessa aqui para passar”, contou. Mas agora, para
clinicar, ele tem de encarar a estrada e passar pelo menos uma noite da
semana longe da capital onde mora com a mulher, grávida do primeiro
filho.
Nessa
realidade, Ramísio admite que fica difícil cooptar profissionais de
saúde para a cidade. “Como eu sou da região, gosto de trabalhar no
interior”, afirmou o cirurgião. Na manhã de sexta-feira, levou uma hora
para chegar ao ponto de atendimento numa fazenda.
Na véspera,
quando estava perto de encerrar seu primeiro dia do plantão, Ramísio e a
assistente Poliana Costa ficaram, literalmente, sem energia. A luz
apagou. Era o fim do expediente. Iluminado por uma lâmpada de bateria, o
médico não teve outra alternativa senão deixar o trabalho para o dia
seguinte
Estado
crítico. Assis não é o único prefeito a ter de buscar médicos na
capital. Em Juazeiro do Piauí, a 260 km da capital, plantonistas cobrem a
ausência. “Não temos nenhum médico morador”, disse a secretária de
Saúde, Sulema Brito.
Fonte: JL/AE
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