Com 11 votos favoráveis e um em branco, o pastor Marco
Feliciano (PSC-SP) foi eleito ontem para presidir a Comissão de Direitos Humanos
e Minorias da Câmara. A polêmica escolha do pastor, membro da Assembleia de Deus
acusado de ser homofóbico e racista, contou com aval da maioria dos partidos,
inclusive do PT, que historicamente comandava a comissão. A partir de agora, os
evangélicos têm maioria no colegiado da Câmara.
Policiais legislativos cercaram o corredor das salas das
comissões para impedir a entrada de manifestantes e um novo tumulto, já que na
quarta-feira a eleição teve de ser suspensa por conta dos protestos. A sessão
ontem foi fechada, por determinação do presidente da Casa, Henrique Eduardo
Alves (PMDB-RN).
Em represália à eleição do pastor, Domingos Dutra (PT-MA)
renunciou à presidência da comissão momentos antes da votação. Parlamentares
petistas, do PSOL e do PSB deixaram o plenário da comissão em protesto.
Feliciano foi eleito com os votos de seis deputados do PSC e de parlamentares
evangélicos. O PMDB, o PSDB e o PP cederam suas vagas para o PSC na comissão. Já
o PSB, o PTB, o PSD, o PR e o PV indicaram como titulares deputados
evangélicos.
'Coração negro'. Eleito, o pastor Feliciano afirmou que não é
"nem homofóbico nem racista". "Ao longo deste ano de trabalho na comissão todos
poderão constatar que não sou nada disto. Se eu tivesse algum comportamento
racista, a primeira pessoa a quem eu deveria pedir desculpas é para minha mãe,
que não tem pele negra, mas tem o cabelo negro, os lábios negros e o coração
negro, como eu", disse o pastor.
Ele admitiu, no entanto, ser contra o casamento entre pessoas
do mesmo sexo - "casamento é entre homem e mulher" -, a adoção de crianças por
homossexuais e o aborto, mesmo nos casos de anencefalia.
Apesar de suas posições, o pastor disse que esses temas poderão
ser discutidos na comissão. "Tranquilamente não sei, mas que temos condição de
discutir, sim, sem problema algum." Em 2011, o pastor Feliciano escreveu no
Twitter que o amor entre pessoas do mesmo sexo leva "ao ódio, ao crime e à
rejeição" e que os africanos descendem de um animal "amaldiçoado".
Ontem, ele fez um apelo: "Não se deve julgar uma pessoa que tem
40 anos por 140 caracteres escritos. Me deem aqui uma chance". Depois do dia
anterior, quando os manifestantes o cercaram, Feliciano foi acompanhado todo o
tempo de seguranças da Câmara ontem, que o escoltaram até seu gabinete.
Bate-boca. Assim como na véspera, houve bate-boca entre
parlamentares na sessão de ontem. Os defensores de Feliciano alegaram que o
pastor enfrentava preconceito por ser evangélico. Enfatizaram que os evangélicos
não são homofóbicos. "Nós amamos o homossexual, amamos o ser humano, não amamos
a prática. Se o indivíduo quer amar a vaca... Cristão não é homofóbico. Ser
contra o homossexualismo não nos torna homofóbicos. Amamos o pecador, não amamos
a prática das coisas erradas. É a ditadura dos que são cristofóbicos", afirmou o
pastor e deputado Takayama (PSC-PR).
O deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) reagiu: "Nós amamos os
cristãos, mas detestamos a exploração comercial da fé".
Polêmica à vista. Existem hoje cerca de dez projetos polêmicos
parados na comissão à espera de votação. Um deles é de Jean Wyllys, que
regulamenta a atividade de profissionais do sexo. Outro, de autoria do deputado
João Campos (PSDB-GO), presidente da Frente Parlamentar Evangélica, revoga
resolução do Conselho Federal de Psicologia que impede psicólogos de tratar a
orientação sexual de um paciente como doença. "Os projetos de real interesse
sociedade ficarão parados. Eles vão aproveitar para desenterrar agora outras
propostas, como a que prevê a redução da maioridade penal", previu Domingos
Dutra. "Serei um magistrado", insistiu Feliciano.
Estadão
Nenhum comentário:
Postar um comentário