O jantar de arrecadação de fundos organizado por militantes do PT
de Brasília na quinta-feira, para ajudar o ex-ministro José Dirceu e
outros caciques do partido a pagar as multas milionárias que lhes foram
impostas pelo STF no processo do mensalão, deixou muita gente boa
indignada por aí.
O convescote,
que teve como prato principal o tradicional frango com polenta servido
nos rodízios do ABC paulista, nos quais o ex-presidente Lula se
esbaldava quando era dirigente sindical, não atraiu mais do que cem
comensais. O saldo da “vaquinha” - entre R$ 15 mil e R$ 100 mil – também
ficou bem abaixo do que esperavam os organizadores. Mas a ideia de que Zé Dirceu, Genoino, João Paulo Cunha e Delúbio Soares
sejam tratados pelo PT como heróis que tombaram em defesa da “causa” é
algo simplesmente inaceitável para os cidadãos de bem, que celebraram a
decisão do STF como uma vitória contra a bandalheira promovida pelo
partido que reivindicava para si, até pouco tempo atrás, o monopólio da
ética na vida pública nacional.
Apesar da indignação provocada pelo
evento “beneficente” da capital federal fora dos círculos petistas (e de
simpatizantes), a solidariedade e o apoio irrestrito da militância, de
dirigentes partidários, das autoridades e do chefe-supremo Lula aos
“companheiros” condenados, não deveria ser algo tão surpreendente. Para o
pessoal do PT, é como se os mensaleiros tivessem tombado enquanto
cumpriam uma missão secreta que permitiria o crescimento do partido e
sua perpetuação no poder.
O PT parece ter organizado seu
sistema de captação financeira sem se importar muito com a legalidade ou
ilegalidade de sua estratégia
Como na época da guerrilha, do gênero da que abrigou a presidente Dilma Rousseff,
Zé Dirceu e tantos outros nomes ilustres, o PT parece ter organizado o
seu sistema de captação financeira sem se importar muito com a
legalidade ou ilegalidade de sua estratégia. Diante de uma causa “nobre”
– a de tomar o poder para implantar um governo popular e socializante
–, a máxima de Maquiavel, de que os fins justificam os meios,
prevaleceu. Afinal, o que importava (e ainda importa) era conseguir o
maior volume possível de recursos, para o partido prosperar. Mesmo que,
para isso, fosse (e seja) necessário usar as mesmas ferramentas de seus
adversários, tantas vezes criticadas pelo PT quando estava na oposição.
O mensalão está longe, muito longe de
ser um caso isolado, como mostram os casos das administrações petistas
de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, na época em que o
ex-ministro Antonio Palocci era prefeito, e o de Santo André, no ABC,
onde o prefeito Celso Daniel foi assassinado por razões até hoje não
esclarecidas oficialmente. Nos dois casos, a administração petista foi
acusada de ter criado esquemas de corrupção nas áreas de lixo e de
transporte, para levantar recursos para o partido e enriquecer seus
dirigentes.
Só assim é possível entender por que,
em vez de procurar isolar os mensaleiros como “maçãs podres”, para
tentar salvar a reputação do partido e sua história, a cúpula petista e
sua tropa de choque defendem de forma intransigente os mensaleiros Zé
Dirceu, Genoíno, João Paulo e Delúbio e chegam ao ponto de promover
jantares para ajudá-los a quitar suas dívidas e de ameaçar transformar a
Câmara dos Deputados em asilo para o grupo.
É certo que o governador gaúcho, Tarso
Genro, e o ex-governador Olívio Dutra, ambos do PT, criticaram
recentemente a forma como o partido tem reagido às condenações dos
mensaleiros. Mas a julgar pelo que aconteceu nos últimos anos com gente
que ficou de fora do esquema esperto de captação do PT, como o senador
Eduardo Suplicy, hoje totalmente excluído do processo decisório petista,
Genro e Dutra logo, logo deverão cair em degraça também.
O PT parece ter organizado seu
sistema de captação financeira sem se importar muito com a legalidade ou
ilegalidade de sua estratégia
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